domingo, 3 de maio de 2015

Atributos da divindade

Tema utilizado no grupo de estudos intermediário - Março de 2015



A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender
a natureza íntima de Deus. Na infância da Humanidade,
o homem o confunde muitas vezes com a criatura, cujas imperfeições
lhe atribui; mas, à medida que nele se desenvolve o senso
moral, seu pensamento penetra melhor no âmago das coisas; então,
faz idéia mais justa da Divindade e, ainda que sempre incompleta,
mais conforme à sã razão.
Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável,
imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, temos
idéia completa de seus atributos?
A este questionamento de Allan Kardec responderam os
Espíritos Superiores: Do vosso ponto de vista, sim, porque credes
abranger tudo. Sabei, porém, que há coisas que estão acima da inteligência
do homem mais inteligente, as quais a vossa linguagem,
restrita às vossas idéias e sensações, não tem meios de exprimir. A
razão, com efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo
essas perfeições, porquanto, se uma lhe faltasse, ou não fosse infinita,
já ele não seria superior a tudo, não seria, por conseguinte, Deus.
Para estar acima de todas as coisas, Deus tem que se achar isento
de qualquer vicissitude e de qualquer das imperfeições que a imaginação
possa conceber.

Deus é a suprema e soberana inteligência. É limitada a inteligência
do homem, pois que não pode fazer, nem compreender,
tudo o que existe. A de Deus, abrangendo o infinito, tem que ser
infinita. Se a supuséssemos limitada num ponto qualquer, poderíamos
conceber outro ser mais inteligente, capaz de compreender e fazer
o que o primeiro não faria e assim por diante, até ao infinito.

Deus é eterno, isto é, não teve começo e não terá fim. Se tivesse
tido princípio, houvera saído do nada. Ora, não sendo o nada
coisa alguma, coisa nenhuma pode produzir. Ou, então, teria sido
criado por outro ser anterior e, nesse caso, este ser é que seria Deus.
Se lhe supuséssemos um começo ou fim, poderíamos conceber uma
entidade existente antes dele e capaz de lhe sobreviver, e assim por
diante, ao infinito.

Deus é imutável. Se estivesse sujeito a mudanças, nenhuma
estabilidade teriam as leis que regem o Universo.
Deus é imaterial, isto é, a sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria.
De outro modo, não seria imutável, pois estaria sujeito às transformações da
matéria. Deus carece de forma apreciável pelos nossos sentidos, sem o que seria matéria.
Dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus, a boca de Deus, porque o homem,
nada mais conhecendo além de si mesmo, toma a si próprio por termo de comparação
para tudo o que não compreende. São ridículas essas imagens em que Deus é
representado pela figura de um ancião de longas barbas e envolto num manto. Têm
o inconveniente de rebaixar o Ente supremo até às mesquinhas proporções da Humanidade.
Daí a lhe emprestarem as paixões humanas e a fazerem-no um Deus
colérico e cioso, não vai mais que um passo.

Deus é onipotente. Se não possuísse o poder supremo, sempre se poderia conceber
uma entidade mais poderosa e assim por diante, até chegar-se ao ser cuja
potencialidade nenhum outro ultrapassasse. Esse então é que seria Deus 5.
Deus é soberanamente justo e bom. A providencial sabedoria das leis divinas se
revela nas mais pequeninas coisas, como nas maiores, não permitindo essa sabedoria
que se duvide da sua justiça, nem da sua bondade. O fato de ser infinita uma qualidade,
exclui a possibilidade de uma qualidade contrária, porque esta a apoucaria ou
anularia. Um ser infinitamente bom não poderia conter a mais insignificante parcela
de malignidade, nem o ser infinitamente mau conter a mais insignificante parcela de
bondade, do mesmo modo que um objeto não pode ser de um negro absoluto, com a
mais ligeira nuança de branco, nem de um branco absoluto com a mais pequenina
mancha preta. Deus, pois, não poderia ser simultaneamente bom e mau, porque então,
não possuindo qualquer dessas duas qualidades no grau supremo, não seria Deus;
todas as coisas estariam sujeitas ao seu capricho e para nenhuma haveria estabilidade.
Não poderia ele, por conseguinte, deixar de ser ou infinitamente bom ou infinitamente
mau. Ora, como suas obras dão testemunho da sua sabedoria, da sua bondade e da sua
solicitude, concluir-se- á que, não podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar
de ser Deus, ele necessariamente tem de ser infinitamente bom. A soberana bondade
implica a soberana justiça, porquanto, se ele procedesse injustamente ou com parcialidade
numa só circunstância que fosse, ou com relação a uma só de suas criaturas, já
não seria soberanamente justo e, em conseqüência, já não seria soberanamente bom.

Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber-se Deus sem o infinito
das perfeições, sem o que não seria Deus, pois sempre se poderia conceber um ser que
possuísse o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo, faz-se mister
que ele seja infinito em tudo. Sendo infinitos, os atributos de Deus não são suscetíveis
nem de aumento, nem de diminuição, visto que, do contrário, não seriam infinitos e
Deus não seria perfeito. Se lhe tirassem a qualquer dos atributos a mais mínima
parcela, já não haveria Deus, pois que poderia existir um ser mais perfeito.

Deus é único. A unicidade de Deus é conseqüência do fato de serem infinitas
as suas perfeições. Não poderia existir outro Deus, salvo sob a condição de ser igualmente
infinito em todas as coisas, visto que, se houvesse entre eles a mais ligeira
diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao poder desse outro e, então, não
seria Deus. Se houvesse entre ambos igualdade absoluta, isso equivaleria a existir, de
toda eternidade, um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder.
Confundidos assim, quanto à identidade, não haveria, em realidade, mais que um
único Deus. Se cada um tivesse atribuições especiais, um não faria o que o outro
fizesse; mas, então, não existiria igualdade perfeita entre eles, pois que nenhum possuiria
a autoridade soberana.
A mais elevada concepção de Deus que podemos abrigar no Santuário do Espírito
é aquela que Jesus nos apresentou, em no-lo revelando Pai amoroso e justo, à
espera dos nossos testemunhos de compreensão e de amor.
Jesus não [...] se sentou na praça pública para explicar a natureza de Deus e,
sim, chamou-lhe simplesmente «Nosso Pai», indicando os deveres de amor e reverência
com que nos cabe contribuir na extensão e no aperfeiçoamento da Obra Divina 14.
Por este ensinamento, o Cristo nos esclarece que todos [...] somos irmãos,
filhos de um só Pai, que nos aguarda sempre, de braços abertos, para a suprema
felicidade no eterno bem!...
O Mestre queria dizer-nos que Deus, acima de tudo, é nosso Pai. Criador dos
homens, das estrelas e das flores. Senhor dos céus e da Terra. Para Ele, todos somos
filhos abençoados. Com essa afirmativa, Jesus igualmente nos explicou que somos no
mundo uma só família e que, por isso, todos somos irmãos, com o dever de ajudar-nos
uns aos outros [...]. Na condição de aprendizes do nosso Divino Mestre, devemos seguir-
lhe o exemplo. Se sentirmos Deus como Nosso Pai, reconheceremos que os nossos
irmãos se encontram em toda parte e estaremos dispostos a ajudá-los, a fim de sermos
ajudados, mais cedo ou mais tarde. A vida só será realmente bela e gloriosa, na Terra,
quando pudermos aceitar por nossa grande família a Humanidade inteira.
Em resumo, Deus não pode ser Deus, senão sob a condição de que nenhum
outro o ultrapasse, porquanto o ser que o excedesse no que quer que fosse, ainda que
apenas na grossura de um cabelo, é que seria o verdadeiro Deus. Para que tal não se
dê, indispensável se torna que ele seja infinito em tudo. É assim que, comprovada
pelas suas obras a existência de Deus, por simples dedução lógica se chega a determinar
os atributos que o caracterizam.
Deus é, pois, a inteligência suprema e soberana, é único, eterno, imutável,
imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições, e

não pode ser diverso disso.

domingo, 5 de abril de 2015

Estude e Viva

Queridos companheiros de jornada, iniciamos as nossas atividades no estudo da Doutrina no ano de 2015 no Núcleo de Estudo Espírita Chico Xavier. Iremos compartilhar com vocês os temas que abordamos em nossos estudos, para consulta, ou para que juntos, possamos refletir sobre a mensagem do nosso querido Mestre Jesus.


ESTUDE E VIVA

Estude e viva. Valorizamos a ágape comum, em que se debatem assuntos corriqueiros de vivência humana. Como desinteressar-nos dos encontros espíritas, nos quais se ventilam questões fundamentais da vida eterna? A reunião espírita não é um culto estanque de crença embalsamada em legendas tradicionalistas. Define-se como sendo assembleia de fraternidade ativa, procurando na fé raciocinada a explicação lógica aos problemas da vida, do ser e do destino. Todos somos chamados a participar dela.
Falar e ouvir.
 Ensinar e aprender
***
Estamos defrontados no Espiritismo por uma tarefa urgente: desentranhar o pensamento vivo de Allan Kardec dos princípios que lhe constituem a codificação doutrinária, tanto quanto ele, Kardec, buscou desentranhar o pensamento vivo do Cristo dos ensinamentos contidos no Evangelho.
 Capacitemo-nos de que o estudo reclama esforço de equipe. E a vida em equipe é disciplina produtiva, com esquecimento de nós mesmos, em favor de todos. Destacar a obra e olvidar-nos. Compreender que a realização e educação solicitam entendimento e apoio mútuo. Associarmo-nos sem a pretensão de comando. Aceitar as opiniões claramente melhores que as nossas; resignarmo-nos a não ser pessoa providencial. Em hipótese alguma, admitir-nos num conjunto de heróis e sim num agrupamento de criaturas humanas, em que a experiências difíceis podem ocorrer a qualquer momento. Nunca menosprezar os outros, por maiores as complicações que apresentem. Por outro lado, aceitar com sinceridade e bom-humor as críticas que outros nos enderecem. Esquecer as velhas teclas da maldição aos perversos, da sociedade corrompida, da humanidade a caminho do abismo ou do tudo deve ser feito como os guias determinaram. Não subestimar o perigo do mal, todavia, procurar o bem acima de tudo e favorecer lhe a influência; não ignorar os erros da coletividade terrestre, mas identificar-lhe o benefícios e auxiliá-la no aperfeiçoamento preciso; não cerrar os olhos aos enganos da Humanidade, contudo, reconhecer que o progresso é lei e colaborar com o progresso, em todas as circunstâncias; não fugir ao agradecimento devido aos benfeitores e amigos desencarnados, entretanto, não abdicar do raciocínio próprio e nem desertar da responsabilidade pessoal a pretexto de humildade e gratidão para com eles.
 Somos trazidos à escola espírita, a fim de auxiliarmos e sermos auxiliado, na permuta de experiências e aquisição de conhecimento. Estudar para aprender. Aprender para trabalhar. Trabalhar para servir sempre mais. Estude e viva. Pense no valor de sua cooperação na melhoria e no engrandecimento da equipe de que participa, esteja ela constituída no templo doutrinário ou em seu culto doméstico de elevação espiritual. Não esquecer que o seu auxílio ao grupo deve ser tão substancial e tão importante quanto o auxílio que o grupo está prestando a você.

André Luiz Uberaba, 11 de fevereiro de 1965. (Página recebida pelo médium Waldo Vieira)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ante as portas livres



Boa tarde amigos! No dia 22 de Novembro de 2014 foi abordado o texto do prefâcio do livro Libertação de André Luiz  psicografado por nosso querido Chico Xavier.



Ante as portas livres de acesso ao trabalho cristão e ao conhecimento salutar que André Luiz vai desvelando, recordamos prazerosamente a antiga lenda egípcia do peixinho vermelho.
No centro de formoso jardim, havia grande lago, adornado de ladrilhos azul-turquesa.
Alimentado por diminuto canal de pedra, escoava suas águas, do outro lado, através de grade muito estreita.
Nesse reduto acolhedor, vivia toda uma comunidade de peixes, a se refestelarem, nédios e satisfeitos, em complicadas locas, frescas e sombrias.
Elegeram um dos concidadãos de barbatanas para os encargos de rei, e ali
viviam, plenamente despreocupados, entre a gula e a preguiça.
Junto deles, porém, havia um peixinho vermelho, menosprezado de todos.
Não conseguia pescar a mais leve larva, nem refugiar-se nos nichos barrentos.
Os outros, vorazes e gordalhudos, arrebatavam para si todas as formas larvárias e ocupavam, displicentes, todos os lugares consagrados ao descanso.
O peixinho vermelho que nadasse e sofresse. Por isso mesmo era visto,
em correria constante, perseguido pela canícula ou atormentado de fome.
Não encontrando pouso no vastíssimo domicilio, o pobrezinho não dispunha de tempo para muito lazer e começou a estudar com bastante interesse.
Fêz o inventário de todos os ladrilhos que enfeitavam as bordas do poço, arrolou todos os buracos nele existentes e sabia, com precisão, onde se
reuniria maior massa de lama por ocasião de aguaceiros.
Depois de muito tempo, à custa de longas perquirições, encontrou a grade do escoadouro.
A frente da imprevista oportunidade de aventura benéfica, refletiu consigo:
— “Não será melhor pesquisar a vida e conhecer outros rumos?”
Optou pela mudança.
Apesar de macérrimo pela abstenção completa de qualquer conforto,
perdeu várias escamas, com grande sofrimento, a fim de atravessar a passagem estreitíssima.
Pronunciando votos renovadores, avançou, otimista, pelo rego d’água, encantado com as novas paisagens, ricas de flores e sol que o defrontavam, e
seguiu, embriagado de esperança ...
Em breve, alcançou grande rio e fêz inúmeros conhecimentos.
Encontrou peixes de muitas famílias diferentes, que com ele simpatizaram,
Instruindo-o quanto aos percalços da marcha e descortinando-lhe mais fácil
roteiro.
Embevecido, contemplou nas margens homens e animais, embarcações e pontes, palácios e veículos, cabanas e arvoredo.
Habituado com o pouco, vivia com extrema simplicidade, jamais perdendo a
leveza e a agilidade naturais.
Conseguiu, desse modo, atingir o oceano, ébrio de novidade e sedento de
estudo.
De Inicio, porém, fascinado pela paixão de observar, aproximou-se de uma
baleia para quem toda a água do lago em que vivera não seria mais que
diminuta ração; impressionado com o espetáculo, abeirou-se dela mais que
devia e foi tragado com os elementos que lhe constituíam a primeira refeição
diária.
Em apuros, o peixinho aflito orou ao Deus dos Peixes, rogando proteção no
bojo do monstro e, não obstante as trevas em que pedia salvamento, sua prece
foi ouvida, porque o valente cetáceo começou a soluçar e vomitou, restituindo-o
às correntes marinhas.
O pequeno viajante, agradecido e feliz, procurou companhias sim páticas e aprendeu a evitar os perigos e tentações.
Plenamente transformado em suas concepções do mundo, passou a reparar as infinitas riquezas da vida. Encontrou plantas luminosas, animais estranhos,
estrelas móveis e flores diferentes no seio das águas. Sobretudo, descobriu a existência de muitos peixinhos, estudiosos e delgados tanto quanto ele, junto dos quais se sentia maravilhosamente feliz.
Vivia, agora, sorridente e calmo, no Palácio de Coral que elegera, com centenas de amigos, para residência ditosa, quando, ao se referir ao seu começo laborioso, veio a saber que sômente no mar as criaturas aquáticas
dispunham de mais sólida garantia, de vez que, quando o estio se fizesse mais
arrasador, as águas de outra altitude continuariam a correr para o oceano.
O peixinho pensou, pensou... e sentindo imensa compaixão daqueles com quem convivera na infância, deliberou consagrar-se à obra do progresso e
salvação deles.
Não seria justo regressar e anunciar-lhes a verdade? não seria nobre ampará-los, prestando-lhes a tempo valiosas informações? Não hesitou.
Fortalecido pela generosidade de irmãos benfeitores que com ele viviam no
Palácio de Coral, empreendeu comprida viagem de volta.
Tornou ao rio, do rio dirigiu-se aos regatos e dos regatos se encaminhou
para os canaizinhos que o conduziram ao primitivo lar.
Esbelto e satisfeito como sempre, pela vida de estudo e serviço a que se devotava, varou a grade e procurou, ansiosamente, os velhos companheiros.
Estimulado pela proeza de amor que efetuava, supôs que o seu regresso
causasse surpresa e entusiasmo gerais. Certo, a coletividade inteira lhe celebraria o feito, mas depressa verificou que ninguém se mexia.
Todos os peixes continuavam pesados e ociosos, repimpados nos mesmos
ninhos lodacentos, protegidos por flores de lótus, de onde saiam apenas para
disputar larvas, moscas ou minhocas desprezíveis.
Gritou que voltara a casa, mas não houve quem lhe prestasse atenção,
porqüanto ninguém, ali, havia dado pela ausência dele.
Ridicullzado, procurou, então, o rei de guelras enormes e comunicou-lhe a
reveladora aventura.
O soberano, algo entorpecido pela mania de grandeza, reuniu o povo e
permitiu que o mensageiro se explicasse.
O benfeitor desprezado, valendo-se do ensejo, esclareceu, com ênfase, que
havia outro mundo liquido, glorioso e sem fim. Aquele poço era uma
Insignificância que podia desaparecer, de momento para outro. Além do
escoadouro próximo desdobravam-se outra vida e outra experiência. Lá fora,
corriam regatos ornados de flores, rios caudalosos repletos de seres diferentes
e, por fim, o mar, onde a vida aparece cada vez mais rica e mais surpreendente.
Descreveu o serviço de tainhas e salmões, de trutas e esqüalos. Deu
notícias do peixe-lua, do peixe-coelho e do galo-do-mar. Contou que vira o céu
repleto de astros sublimes e que descobrira árvores gigantescas, barcos
imensos, cidades praieiras, monstros temíveis, jardins submersos, estrelas do
oceano e ofereceu-se para conduzi-los ao Palácio de Coral, onde viveriam
todos, prósperos e tranquilos. Finalmente os informou de que semelhante
felicidade, porém, tinha igualmente seu preço. Deveriam todos emagrecer,
convenientemente, abstendo-se de devorar tanta larva e tanto verme nas locas
escuras e aprendendo a trabalhar e estudar tanto quanto era necessário à
venturosa jornada.
Assim que terminou, gargalhadas estridentes coroaram-lhe a preleção.
Ninguém acreditou nele.
Alguns oradores tomaram a palavra e afirmaram, solenes, que o peixinho
vermelho delirava, que outra vida além do poço era francamente impossível,
que aquela história de riachos, rios e oceanos era mera fantasia de cérebro
demente e alguns chegaram a declarar que falavam em nome do Deus dos
Peixes, que trazia os olhos voltados para eles ünicamente.
O soberano da comunidade, para melhor ironizar o peixinho, dirigiu-se em
companhia dele até à grade de escoamento e, tentando, de longe, a travessia,
exclamou, borbulhante:
— “Não vês que não cabe aqui nem uma só de minhas barbatanas?
Grande tolo! vai-te daqui! não nos perturbes o bem-estar... Nosso lago é o
centro do Universo... Ninguém possui vida igual à nossa! ..
Expulso a golpes de sarcasmo, o peixinho realizou a viagem de retorno e
instalou-se, em definitivo, no Palácio de Coral, aguardando o tempo.
Depois de alguns anos, apareceu pavorosa e devas tadora seca.
As águas desceram de nivel. E o poço onde viviam os peixes pachorrentos
e vaidosos esvaziou-se, compelindo a comunidade inteira a perecer, atolada na
lama...
O esforço de André Luis, buscando acender luz nas trevas, é semelhante à
missão do peixinho vermelho.
Encantado com as descobertas do caminho infinito, realizadas depois de
muitos conflitos no sofrimento, volve aos recôncavos da Crosta Terrestre,
anunciando aos antigos companheiros que, além dos cubículos em que se
movimentam, resplandece outra vida, mais intensa e mais bela, exigindo,
porém, acurado aprimoramento individual para a travessia da estreita
passagem de acesso às claridades da sublimação.
Fala, informa, prepara, esclarece ...
Há, contudo, muitos peixes humanos que sorriem e passam, entre a
mordacidade e a Indiferença, procurando locas passageiras ou pleiteando
larvas temporárias.
Esperam um paraíso gratuito com milagrosos deslumbramentos depois da
morte do corpo.
Mas, sem André Luiz e sem nós, humildes servidores de boa vontade, para
todos os caminheiros da vida humana pronunciou o Pastor Divino as indeléveis
palavras: — “A cada um será dado de acordo com as suas obras.”

EMMANUEL
Pedro Leopoldo, 22 de fevereiro de 1949.

REENCARNAÇÃO



Boa tarde queridos amigos! No dia 11 de Novembro de 2014, foi abordado no grupo de estudos de iniciantes o tema: "Reencarnação". Segue o texto que foi estudado.




“A alma, depois de residir temporariamente no Espaço, renasce na condição humana,
trazendo consigo a herança, boa ou má, do seu passado; (...) reaparece na cena terrestre para (...) pagar as dívidas que contraiu, conquistar novas capacidades que lhe hão de facilitar a ascensão, acelerar a marcha para a frente.
A lei dos renascimentos explica e completa o princípio da imortalidade. (...)” (06)
Não se pode compreender que o Espírito, destinado à perfeição, consiga realizar toda
sorte de progresso numa só existência física. Os próprios fatos do dia-a-dia rejeitam tal idéia.
“(...) Devemos ver na pluralidade das vidas da alma a condição necessária de sua educação e de seus progressos. É à custa dos próprios esforços, de suas lutas, de seus sofrimentos, que ela se redime de seu estado de ignorância e de inferioridade e se eleva, de degrau a degrau, (...)“ a caminho das inúmeras habitações do Universo. (06)
“(...) Cada um leva para a outra vida e traz, ao nascer, a semente do passado. (...)” (07)
Somos hoje o resultado das experiências vividas no passado, como seremos amanhã, o produto das nossas ações de hoje.
“(...) Nem todas as almas têm a mesma idade, nem todas subiram com o mesmo passo
seus estádios evolutivos. Umas percorreram uma carreira imensa e aproximaram-se já do apogeu dos progressos terrestres; outras mal começam o seu ciclo de evolução no seio das humanidades. Estas são as almas jovens, emanadas há menos tempo do Foco Eterno. (...)
Chegadas à humanidade, tomarão lugar entre os povos selvagens ou entre as raças bárbaras que povoam os continentes atrasados, as regiões deserdadas do Globo. E, quando, afinal, penetram em nossas civilizações ainda facilmente se deixam reconhecer pela falta de desembaraço, de jeito, pela sua incapacidade para todas as coisas e, principalmente, pelas suas paixões violentas (...)” (08)
“(...) Assim, no encadeamento das nossas estações terrestres, continua e completa-se a
obra grandiosa de nossa educação, o moroso edificar de nossa individualidade, de nossa personalidade moral. É por essa razão que a alma tem de encarnar sucessivamente nos meios mais diversos, em todas as condições sociais;” (09) é passando alternadamente pelas vidas de pobreza ou riqueza, pelas experiências de renúncias e de trabalho, que irá compreendendo a transitoriedade dos bens materiais e desenvolvendo valores espirituais superiores. “(...) São necessárias as existências de estudo, as missões de dedicação, de caridade, por via das quais se ilustra a inteligência e o coração se enriquece com a aquisição de novas qualidades; virão depois as vidas de sacrifício pela família, pela pátria, pela Humanidade. (...)” Ocorrerão por certo, existências onde o orgulho e o egoísmo serão abafados através das provas dolorosas de resgate do passado de erros.
Assim se define, pois, a pluralidade das existências, ou reencarnação, ou palingenesia.
É uma lei natural, necessária ao aperfeiçoamento humano.
“A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurreição. Só os
saduceus (seita judia, formada por volta do ano 248 a.C., fundada por Sadoc), cuja crença era a de que tudo acaba com a morte, não acreditavam nisso. (...)” (03)
Os judeus não tinham idéias precisas a respeito do mecanismo da ligação da alma ao
corpo e mesmo sobre a imortalidade do Espírito.
“(...) Criam eles que um homem que vivera podia reviver, sem saberem precisamente
de que maneira o fato poderia dar-se. Designavam pelo termo ressurreição o que o Espiritismo, mais judiciosamente, chama reencarnação. Com efeito, a ressurreição dá idéia de voltar à vida o corpo que já está morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo já se acham desde muito tempo dispersos e absorvidos. A reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas e outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo. A palavra ressurreição podia assim aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. (03) “A idéia de que João Batista era o Espírito de Elias reencarnado, tornou-se tão firme nos discípulos de Jesus, que não admitiam absolutamente dúvida a respeito. E é de notar que o Senhor não dissuadiu seus discípulos desse pensamento; ao contrário, confirmou-o categoricamente:
“Se vós quereis compreender, João Batista é o Elias que há de vir”. (Mateus: 11,
14 é 15)” (10)
Quando Jesus disse a Nicodemos: “Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode
ver o reino de Deus se não nascer de novo” e ante a estranheza do senador dos judeus de como tal situação poderia ocorrer: Como pode isso fazer-se? Jesus replicou como que surpreendido:
“És mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade, que não dizemos
senão o que sabemos e que não damos testemunho, senão do que temos visto. Entretanto, não aceitas o nosso testemunho — Mas, se não me credes, quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis, quando vos fale das coisas do céu?” (João, 3: 1 a 12), quis mostrar que a crença na reencarnação é um ensinamento óbvio, natural, inerente à evolução do próprio homem.
Jesus ensinou a Doutrina das vidas sucessivas a Nicodemos, pregando-a a toda a Humanidade, porque somente através da reencarnação, o homem sabe quem é, donde veio e para aonde vai.
“Não há, pois, dúvidas de que, sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação
era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus, ponto que Jesus e os profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que negar a reencarnação é negar as palavras do Cristo. (...)” (04)
Não encarnamos e reencarnamos apenas no planeta Terra; “não; vivemo-las em diferentes mundos. As que aqui passamos não são as primeiras, nem as últimas; são, porém, das mais materiais e das mais distantes da perfeição.” (01)
“A bem dizer, a encarnação carece de limites precisamente traçados, se tivermos em
vista apenas o envoltório que constitui o corpo do Espírito, dado que a materialidade desse envoltório diminui à proporção que o Espírito se purifica. Em certos mundos mais adiantados do que a Terra, já ele é menos compacto, menos pesado e menos grosseiro e, por conseguinte, menos sujeito a vicissitudes. Em grau mais elevado, é diáfano e quase fluídico. Vai desmaterializando-se de grau em grau e acaba por se confundir com o perispírito. (...)” (05)
A constituição do perispírito está em função da natureza de cada mundo.
“(...) O próprio perispírito passa por transformações sucessivas. Torna-se cada vez
mais etéreo, até à depuração completa, que é a condição dos puros Espíritos. (...)” (05)
A encarnação, tal como ocorre na Terra, é a mesma que se observa nos mundos inferiores. Nos mundos superiores, onde só imperam o sentimento de fraternidade e estando os seus habitantes livres das paixões grosseiras que ocorrem em mundos atrasados, os Espíritos gozam de uma encarnação bem mais feliz e nenhum temor têm da morte. “(...) A duração da vida, nos diferentes mundos, parece guardar proporção com o grau de superioridade física e moral de cada um, o que é perfeitamente racional. Quanto menos material o corpo, menos sujeito às vicissitudes que o desorganizam. Quanto mais puro o Espírito, menos paixões a dominá-lo. É essa ainda uma graça da Providência, que desse modo abrevia os sofrimentos.” (02)
* * *
FONTES DE CONSULTA
01 - KARDEC, Allan. Da Pluralidade das Existências. In: O Livro dos Espíritos. Trad. de
Guillon Ribeiro. 75. ed. Rio de Janeiro, FEB, 1994. Perg. 172, pág. 122.
02 - Comentário à perg. 182, págs. 125-126.
03 - Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo. In: O Evangelho Segundo o
Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro. 111. ed. Rio de Janeiro, FEB, 1995. Item 4, pág. 84.
04 - Item 16, pág. 89.
05 - Item 24, págs. 93-94.
06 - DENIS, Léon. As Vidas Sucessivas. A Reencarnação e Suas Leis. In: O Problema do
Ser. do Destino e da Dor. 16. ed. Rio de Janeiro, FEB, 1991. Pág. 163.
07 - Pág. 165.
08 - Pág. 166.
09 - Pág. 167.
10 - SAYÃO, Antônio Luiz. In: Elucidações Evangélicas. 10. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995.
Págs. 258-260.
Texto Extraído do Programa II do ESDE Editado Pela FEB

Texto Complementar


Estudo de caso simplificado: A História de Stella
A seguinte história foi relatada por Edgar Cayce, notável
médium americano, cuja última encarnação ocorreu no período
de 1877-1945.
Stela Kirby, uma senhora simpática, tranqüila e algo tímida, sempre teve vida difícil, sobretudo depois que, por motivos conjugais e financeiros, se viu na contingência de educar a única filha às próprias custas. Amigos aconselharam-na, então, a trabalhar na área de enfermagem.
Tempos depois, Stella foi encaminhada a uma família rica que procurava alguém para cuidar de um parente enfermo. No acerto das condições de trabalho, ficou estipulado que Stella receberia bom salário e local para morar com a filha, em aposentos próprios, na residência dos seus empregadores.
Quando Stella viu, pela primeira vez, o enfermo do qual deveria cuidar, quase desmaiou, chocada com a situação do mesmo. Tratava-se de um homem de 57 anos, em completo estado de retardamento mental. Sua cama era cercada por uma jaula de ferro. O doente ficava, a maior parte do dia, sentado,
rasgando a roupa que lhe vestiam; recusava-se a comer, mantendo-
se em permanente estado de imundície, devido à falta de controle das funções fisiológicas; o olhar era vago, perdido em si mesmo; a inexpressividade ao falar indicava que não tinha a menor consciência do que ocorria à sua volta.
Tomada de coragem, Stella entrou na jaula para cuidar do seu paciente, mas, devido às condições reinantes, passou tão mal que teve que correr ao banheiro, por não poder controlar as náuseas.
Presa de angustiante sentimento de desânimo, imaginou que a tarefa poderia ser superior às suas forças.
Entretanto, ao buscar auxílio junto aos benfeitores espirituais, por intermédio da mediunidade de Edgar Cayce, estes esclareceram [...] que já duas vezes no passado os caminhos de Stella e daquele homem se haviam cruzado. No Egito, ele havia sido filho dela; o asco que ora sentia por ele, no entanto, provinha de uma existência no Oriente Médio, na qual ele fora um rico filantropo que, no entanto, levava uma vida de devassidão, numa espécie de
harém, onde praticava abusos de toda sorte. Stella fora, então, uma
das infelizes que tinham de se submeter aos seus caprichos. (*) O reencontro de ambos, na presente reencarnação, visava ao perdão mútuo, reajustando-os perante a Lei de Deus.
Stella foi também esclarecida por Cayce que, se soubesse agir com afeto, o
doente responderia aos seus cuidados. Cabia-lhe, portanto, aprender a amar o
enfermo, disposta a reparar o passado desditoso. Abandoná-lo não seria [...]
solução, porque a ligação entre os dois continuaria em suspenso, a invadir os domínios de futuras existências. Stella jamais ouvira falar de reencarnação. Cayce lhe disse, ainda, que numa outra existência, na Palestina, ela cuidara de crianças defeituosas e que, portanto, estava habilitada ao trabalho junto ao paciente. Ela voltou à tarefa com nova carga de coragem e nova compreensão dos seus problemas. Para encurtar a história: o pobre homem de fato respondeu ao tratamento carinhoso de Stella; começou a alimentar-se espontaneamente, a conservar-se limpo e vestido.
Com o olhar pacificado ele seguia Stella, sem perdê-la de vista um minuto. (*)
 



Poder da fé

1. Quando Ele veio ao encontro do povo, um homem se lhe aproximou e, lançando- se de joelhos a seus pés, disse: “Senhor, tem piedade d...