Destruição necessária e destruição abusiva
em razão da predominância
[...] da bestialidade sobre a natureza espiritual. Toda destruição que excede
os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus. A destruição recíproca
dos seres vivos é, dentre as leis da Natureza, uma das que, à primeira vista,
menos parecem conciliar-se com a bondade de Deus. Pergunta-se por que lhes
criou ele a necessidade de mutuamente se destruírem, para se alimentarem uns à
custa dos outros. Para quem apenas vê a matéria e restringe à vida presente a
sua visão, há de isso, com efeito, parecer uma imperfeição na obra divina. É
que, em geral, os homens apreciam a perfeição de Deus do ponto de vista humano;
medindo-lhe a sabedoria pelo juízo que dela formam, pensam que Deus não poderia
fazer coisa melhor do que eles próprios fariam. Não lhes permitindo a curta
visão, de que dispõem, apreciar o conjunto, não compreendem que um bem real
possa decorrer de um mal aparente. Só o conhecimento do princípio espiritual,
considerado em sua verdadeira essência, e o da grande lei de unidade, que
constitui a harmonia da criação, pode dar ao homem a chave desse mistério e
mostrar-lhe a sabedoria providencial e a harmonia, exatamente onde apenas vê
uma anomalia e uma contradição. A verdadeira vida, tanto do animal como do
homem, não está no invólucro corporal, do mesmo modo que não está no vestuário.
Está no princípio inteligente que preexiste e sobrevive ao corpo. Esse
princípio necessita do corpo, para se desenvolver pelo trabalho que lhe cumpre
realizar sobre a matéria bruta. O corpo se consome nesse trabalho, mas o
Espírito não se gasta; ao contrário, sai dele cada vez mais forte, mais lúcido
e mais apto. [...] Por meio do incessante espetáculo da destruição, ensina Deus
aos homens o pouco caso que devem fazer do envoltório material e lhes suscita a
ideia da vida espiritual, fazendo que a
desejem como uma compensação. Objetar-se-á: não podia Deus chegar ao mesmo
resultado por outros meios, sem constranger os seres vivos a se entre
destruírem? Desde que na sua obra tudo é sabedoria, devemos supor que esta não
existirá mais num ponto do que noutros; se não o compreendemos assim, devemos
atribuí-lo à nossa falta de adiantamento. Contudo, podemos tentar a pesquisa da
razão do que nos pareça defeituoso, tomando por bússola este princípio: Deus há
de ser infinitamente justo e sábio. Procuremos, portanto, em tudo, a sua
justiça e a sua sabedoria e curvemo-nos diante do que ultrapasse o nosso
entendimento. Uma primeira utilidade que se apresenta de tal destruição,
utilidade, sem dúvida, puramente física, é esta: os corpos orgânicos só se
conservam com o auxílio das matérias orgânicas, matérias que só elas contêm os
elementos nutritivos necessários à transformação deles. Como instrumentos de
ação para o princípio inteligente, precisando os corpos ser constantemente
renovados, a Providência faz que sirvam ao seu mútuo entretenimento. Eis por
que os seres se nutrem uns dos outros. Mas, então, é o corpo que se nutre do
corpo, sem que o Espírito se aniquile ou altere. Fica apenas despojado do seu
envoltório. Há também considerações morais de ordem elevada. É necessária a
luta para o desenvolvimento do Espírito. Na luta é que ele exercita suas
faculdades. O que ataca em busca do alimento e o que se defende para conservar
a vida usam de habilidade e inteligência, aumentando, em conseqüência, suas
forças intelectuais. Um dos dois sucumbe; mas, em realidade, que foi o que o
mais forte ou o mais destro tirou ao mais fraco? A veste de carne, nada mais;
ulteriormente, o Espírito, que não morreu, tomará outra. A [...] lei de
destruição é, por assim dizer, o complemento do processo evolutivo, visto ser
preciso morrer para renascer e passar por milhares de metamorfoses, animando
formas corporais gradativamente mais aperfeiçoadas, e é desse modo que,
paralelamente, os seres vão passando por estados de consciência cada vez mais
lúcidos, até atingir, na espécie humana, o reinado da Razão. A segunda, não prevista na lei de Deus,
resulta da imperfeição moral e intelectual do homem,
A denominada
lei de destruição melhor se conceituaria, no dizer dos Instrutores Espirituais,
como lei de transformação. O que ocorre, na realidade, é a transformação e não
a destruição, tanto no que concerne à matéria, quanto no que se refere ao
Espírito. A célebre anunciação de Lavoisier * — na natureza nada se cria, nada
se perde, tudo se transforma — foi uma antevisão científica, no campo da
matéria, do que os Espíritos viriam confirmar mais tarde ao Codificador. Tomada
como transformação, a norma aplica-se também ao Espírito eterno, indestrutível,
mas em contínua mutação, obedecendo à evolução e ao progresso sob os processos
mais variados e complexos.
Nos seres
inferiores da criação, naqueles a quem ainda falta o senso moral, nos quais a
inteligência ainda não substituiu o instinto, a luta não pode ter por móvel
senão a satisfação de uma necessidade material. A destruição mútua existente
entre os animais, mantida às custas da cadeia alimentar, atende à lei natural
de preservação e diversidade biológica das espécies da Natureza. No homem, há
um período de transição em que ele mal se distingue do bruto. Nas primeiras
idades, domina o instinto animal e a luta ainda tem por móvel a satisfação das
necessidades materiais. Mais tarde, contrabalançam-se o instinto animal e o
sentimento moral; luta então o homem, não mais para se alimentar, porém, para
satisfazer à sua ambição, ao seu orgulho, à necessidade, que experimenta, de
dominar. Para isso, ainda lhe é preciso destruir. Todavia, à medida que o senso
moral prepondera, desenvolve-se a sensibilidade, diminui a necessidade de
destruir, acaba mesmo por desaparecer, por se tornar odiosa. O homem ganha
horror ao sangue. Contudo, a luta é sempre necessária ao desenvolvimento do
Espírito, pois, mesmo chegando a esse ponto, que parece culminante, ele ainda
está longe de ser perfeito. Só à custa de muita atividade adquire conhecimento,
experiência e se despoja dos últimos vestígios da animalidade. Mas, nessa
ocasião, a luta, de sangrenta e brutal que era, se torna puramente intelectual.
O homem luta contra as dificuldades, não mais contra os seus semelhantes. A
sabedoria divina dotou os seres vivos de dois instintos opostos: o de
destruição e o de conservação. Ambos funcionam como princípios da natureza.
Pelo primeiro, os seres se destroem reciprocamente, visando diferentes fins,
entre os quais a alimentação com os despojos materiais.12 Deus coloca [...] o
remédio ao lado do mal [...] para manter o equilíbrio e servir de contrapeso. É
por essa razão que as [...] criaturas são instrumentos de que Deus se serve
para chegar aos fins que objetiva. Para se alimentarem, os seres vivos
reciprocamente se destroem, destruição esta que obedece a um duplo fim:
manutenção do equilíbrio na reprodução, que poderia tornar-se excessiva, e
utilização dos despojos do invólucro exterior que sofre a destruição. Esse
invólucro é simples acessório e não a parte essencial do ser pensante. A parte
essencial é o princípio inteligente, que não se pode destruir e se elabora nas
metamorfoses diversas por que passa. A destruição abusiva é, sob qualquer pretexto,
um atentado à lei de Deus.
Nesse sentido,
o [...] homem tem papel preponderante diante dos demais seres vivos, * ao
dizimar, em larga escala, os demais seres da criação, seja buscando alimentar
acrescente população humana, seja aproveitando os despojos animais e vegetais
em inú meras indústrias de transformação, que lhe proporcionam múltiplas
utilidades.
*(LAVOISIER,
Antoine (1743-1794): químico francês, guilhotinado durante a Revolução
Francesa, é considerado o Pai da Química Moderna. Este lúcido cientista muito
contribuiu para o avanço da Ciência nos campos da química geral e da química
orgânica.)
Infelizmente,
existem significativas e graves destruições no nosso Planeta em razão da
desmedida ambição humana. A título de sustentação de preços de mercado,
teóricos economistas, há algumas décadas, sustentavam a vantagem da destruição
de produtos e colheitas, como aconteceu no Brasil, na década de 1930, quando
milhares e milhares de toneladas de café foram queimadas, numa demonstração
inequívoca de insensibilidade, de egoísmo e de ignorância dos responsáveis por
tais desmandos. Enquanto se estendiam os campos de queima de café no Sul do
país, em estúpida destruição, populações inteiras do Nordeste e do Norte não
tinham meios de adquirir café para a sua alimentação. [...] Outros abusos que
têm provocado a reação e os protestos das populações esclarecidas de todo o
Planeta, por sua profunda repercussão no relacionamento entre os seres vivos e
o meio ambiente, são os problemas ecológicos. Relativamente recente tem sido a
conscientização das populações para esse tipo de destruição, que o homem,
consciente ou inconscientemente, vem provocando na terra, nas águas e na
atmosfera. [...] Não se pode deixar de reconhecer que os novos processos
tecnológicos, aliados à enorme proliferação dos estabelecimentos fabris, sem os
necessários cuidados capazes de evitar a poluição, vão causando a destruição da
vida animal nos rios, lagos e mares, com o contínuo lançamento de dejetos e
resíduos industriais nas águas, ao mesmo tempo que fábricas e máquinas de toda
espécie contribuem para poluir a atmosfera. Some-se a tudo isso a destruição
contínua das florestas e de muitas espécies animais e ainda a ameaça das
bombas, usinas e lixo atômico e tem-se um quadro sombrio das condições materiais
do mundo contemporâneo, agravando-se pelo descuido, imprevidência e
deseducação, gerando o desequilíbrio mesológico e perspectivas pouco
animadoras.14 Sabemos, entretanto, que a destruição abusiva irá desaparecer,
paulatinamente, da Terra, em razão do progresso moral e intelectual do ser
humano. Atualmente já existe um número significativo de indivíduos e
organizações, espalhados pelo mundo, seriamente trabalhando para que a vida no
Planeta se desenvolva num clima de equilíbrio, o que demonstra uma
conscientização mais ampla a respeito desse assunto.
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